Paulo, Apóstolo de Cristo

No dia 3 de maio, estreou, nos cinemas brasileiros, o filme Paulo, o Apóstolo de Cristo (2018), com 108 minutos, roteiro e direção de Andrew Hyatt e elenco já experiente em filmes do gênero, como o ator que representa Lucas (Jim Caviezel), este que viveu Jesus no filme A paixão de Cristo (2004). A escolha do autor do filme passa por recorte temporal, a partir da prisão de Paulo. O contexto político-social combinava um sistema escravocrata com o poder absoluto nas mãos de Nero, em forma de governo cruel e implacável com determinados grupos, quando o comércio humano era algo comum, com pessoas feitas como tochas para iluminação dos caminhos na cidade, por exemplo, caso voz fosse discordante ao modelo dominante.

O incêndio tomava Roma e a autoria era atribuída a Paulo. Não precisava de provas para acusação. Nero detinha o poder e forjava para conseguir o que queria. Diante de uma realidade bárbara aos descentes de Jesus (o filme retrata o século I), a decisão de permanecer em Roma encontrava resistência dentro da própria comunidade cristã. Muitos perderam suas casas e eram perseguidos. Enquanto isso, Paulo foi utilizado como um exemplo do que se fazia com encarcerados, quando a resposta de falhas (ou supostas falhas) vinha no corpo, por meio de torturas. Fato este ainda observado em penitenciárias e unidades de internação, modelo defendido por tantos, estes que parecem ter traves nos olhos, diante de tantas causas que conformam o infrator, ainda que a responsabilização deva existir, mas não de qualquer forma.

Paulo representava o que alguns teóricos chamam de classe perigosa. O medo de ruir as bases que conformavam a manutenção do poder exigiu ações em direção ao silenciamento daquele que possuía condições da fala e da influência. Vemos isso no campo político hoje. Não é diferente no espiritual. Paulo era o novo autor do pensamento que questionava a relação entre Sociedade e Estado: ao mesmo tempo, era conhecedor das leis e reprodutor dos ensinamentos de Jesus; logo, precisava ser desmontado. Nero sabia que disso dependia seu reino.

Preso, Paulo, já convertido, demonstrou sua humanidade, também reclamou. Por outro lado, colocou em exercício seu modelo de fé, também utilizado como paradigma motivacional a outros indivíduos e povos. Chama atenção no filme a figura de autoridade (o prefeito) no calabouço, onde Paulo cumpria a pena. Ainda que obediente aos ditames de Nero, o prefeito autorizou Lucas, médico e amigo de Paulo, a ocupar o mesmo espaço deste, quando provocações acerca da sua ousadia não faltavam. O prefeito não entendia o arrojo de Lucas em querer entrar no cárcere, quando muitos poderiam fazer qualquer coisa para de lá sair. As desconfianças do prefeito aumentavam.

Enquanto era apresentada a comparação entre o cristão assumir as formas de lobo, serpente e pomba nas mais diversas situações apresentadas, a inquietude de Lucas canalizava seus pensamentos a tentar compreender o porquê tanta maldade entre as pessoas. Tudo aquilo não fazia sentido. A preocupação entre os discípulos de Jesus encontrava identidade entre os marginalizados - prostitutas, abandonados, pobres, dentre outros grupos. As memórias levavam Paulo para outro tempo, quando sangue em suas mãos confirmava seu tempo de Saulo e a perseguição aos cristãos era seu objetivo de vida.

Paulo é assombrado pelas memórias na prisão, que ele entende serem provações. Muito embora sem elementos que comprovem, isso é identificado como seu espinho na carne, para se lembrar de seus limites e desafios. Um dos homens mais lembrados da história, com tantos feitos à propagação do Evangelho, também era atormentado pelo passado.

O poder e as opressões romanas avançavam, o que geravam uma insatisfação, quando vozes levantavam em favor de resposta com violência, na defesa da necessidade de se pegar em armas com o intuito de vingança. Em resposta a este entendimento, o aprendizado de parte do grupo foi no sentido de autocontrole, ficar com o prejuízo (algo cada vez mais difícil de ver, em sociedade intolerante ao erro e à perda): a paz iria começar de modo individual.

A instabilidade de Lucas na ofensiva romana dá lugar à famosa passagem sobre o amor na doce fala de Paulo, este que, em outro momento (antes da conversão), reproduzia seu ódio.  A conversão de Paulo ganha segundos no filme em câmera lenta, quando o seu arrependimento é demonstrado na conversa com Ananias, após a famosa passagem no Caminho de Damasco. O próprio Paulo teve de aprender a orar, a falar, a amar.

Em meio a tantas palavras antropocêntricas e de autoajuda que observamos hoje, uma mulher no filme (no século I) apresenta a necessidade de cuidar do mundo, não a mera ambição de governar o mundo, ocupar, a qualquer custo, os espaços de decisão, polêmica que encontramos em nosso tempo, quando disputas teológicas e espirituais estão postas, o que, às vezes, têm provocado inchaços, com pessoas doentes emocional e espiritualmente, que seguem líderes sem qualquer questionamento, no sentido de se verificar a verdadeira relação entre o que se compartilha nos cultos com a palavra de Deus.

Lucas preso por conspiração. Paulo preso por supostamente ter colocado fogo em Roma. Parecia que pegar em armas seria a única estratégia para solucionar a realidade de violência contra os cristãos. Se todo o sistema escravocrata era posto em xeque, na luta não por privilégios, mas por liberdade em Cristo, Paulo dispara que sempre todo homem será escravo de alguma coisa. Isso é forte, visto que mesmo livres, tantos depositam dependência em coisas, pessoas, pensamentos, prendendo-se a situações voláteis, as quais aprisionam. A vida de Paulo era fascinante a Lucas, este queria que todos conhecessem a vida daquele em detalhes.

Lucas também escreveu sobre pobres e estrangeiros. No filme, respondeu que fazia isso para que todos soubessem que a salvação é para todos. Há momento no filme em que a categoria perseverança comparece, visto que não devemos desistir do outro, mas esgotar as estratégias que contribuam para a transformação dos que estão a nossa volta. Os inimigos podem ser convertidos.

O que tem reservado aos discípulos de Jesus é bem maior que podemos apreender na Terra. Na luta pelas gotas do mar na palma da mão, visões distorcidas impedem de conhecer a grandiosidade do próprio oceano. Não é novidade o fim de Paulo - não é spoiler,  mas a forma como isso se dá, dentre tantas outras coisas no filme, vale a ida ao cinema, com a finalização do jogo de imagens entre o passado e o presente de Paulo, em indicação acerca da então retirada de um espinho que tanto o atormentou.

Paulo é bem criticado entre os que não o conhecem ou conhecem parte do seu diálogo, de modo isolado. Ele é taxado de tantas coisas, entre as quais a de ser machista, desconsiderando fatores históricos, políticos, sociais, econômicos e culturais, em conjuntura e estrutura que tanto se fala e persegue para a correta análise, mas utilizados de forma seletiva entre teóricos advindos de outras ramificações conceituais. É tempo de conhecimento, de modo a promover defesa consciente do amor de Cristo, de forma a combater o bom combate e guardar a fé, como instrumento de Deus na Terra para que seu Reino seja conhecido.

No filme, são expostas as fraturas da fragilidade humana em viver o Evangelho. Há bilhões de pessoas no mundo que ainda não conhecem Jesus. Que o filme contribua ao alcance dessas pessoas, que o Evangelho nos transforme, que nos fortaleça a irmos em frente, já que o central é a nossa salvação e anunciar Cristo a todos. Não se envergonhe disto. Assuma seu papel, visto que há muito a se fazer e poucos dispostos a colocar a mão na massa. Mesmo com orçamento limitado ao padrão de Hollywood, o que gera alguns limites técnicos, a reprodução da história de Paulo, ainda que apresente alguns questionamentos quanto à conexão com o texto bíblico, aproxima-se da realidade de modo positivo.

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