Eu só posso imaginar

É uma mensagem de esperança e perdão. Eu só posso imaginar (2018), 111 minutos, de autoria de Jon Erwin e Andrew Erwin, possui roteiro baseado em fatos reais, sobretudo na conflituosa relação entre pai (Arthur) e filho (Bart Millard): é a história que ronda o maior sucesso da música gospel mundial, uma narrativa biográfica do vocalista da banda cristã MercyMe, em que maus tratos do pai (interpretado por Dennis Quaid) impactam nos primeiros minutos do filme.

 

Ao relembrar os tempos do Texas, em 1985, Bart cria empatia por sua simpatia, mas também por ser vítima de um pai violento, o qual ignora seus talentos artísticos (cria coisas a partir de sucatas) e suas tentativas de agradá-lo. A dolorosa infância de Bart toma metade do filme, quando a centralidade religiosa não fica óbvia.

 

As agressões de Arthur contra o filho também são de ordem psicológica, quando seus pertences eram queimados e o desejo de uma relação saudável com o pai encerrava em frustrações. Ao falar dos achados musicais recentes ao pai, Bart, em dado momento, ouve que sonhos não pagavam contas. No contexto de violência doméstica, as brigas entre os pais da então criança não tinham razão de ser: segundo Arthur, ele deveria criar o filho ao seu modo.

 

Distante do pai, Bart reconhecia a mãe (Meemaw) como figura exclusiva de acolhimento e proteção. Juntos ouviam músicas. Após noite de agressão entre os pais de Bart, este é encaminhado ao acampamento da Igreja, quando conhece Shannon, com quem faz amizade e envolve-se nos sentimentos genuínos do primeiro amor. Ao retornar para casa, encontra os pertences da casa depositados em caminhão, quando descobre que a mãe havia o abandonado.

 

A irresponsabilidade de Meemaw ao deixar o filho aos cuidados de um pai violento encontra resposta em seu próprio sofrimento na condição de esposa. No entanto, a contradição na história dela fica evidente em outro momento do filme, quando o próprio Bart declara que a mãe estava em outro relacionamento com companheiro ainda mais abusivo, sendo vítima de novos sofrimentos, sem conseguir romper com uma história de vida permeada pela falta de paz.

 

O filme chama atenção para algo tão comum em crianças envoltas em relações parentais violentas: Bart sente-se culpado pelo abandono e, ao correr atrás do caminhão, que levava os pertences da mãe, desculpa-se de algo impossível de se identificar. Agora obrigado a conviver com o pai violento, Bart não tinha alternativa: fazia tudo para agradar o pai, como compor a equipe de futebol da escola.

 

Mas, nem mesmo o fato de o filho ser membro do time de futebol motivava o interesse de Arthur e o acidente em jogo foi razão do diagnóstico do fim da carreira de Bart. Com grade horária vaga, este se matriculou na disciplina de Coral, que despertou atenção da professora (Fincher), que o escala como destaque do musical sob a sua responsabilidade. Isso não ocorreu sem resistências de Bart, já que fora obrigado a enterrar seus talentos. Era momento de Bart ser confrontado, sair da zona de conforto, passar pelo processo de aceitação. A escolha pela música mudou o padrão comportamental dele, lógico que também associado ao seu processo de maturidade, já que o início da fase da adulta começava a se apresentar.

 

De um menino tímido e aparentemente solitário para um homem disposto a viver de música. Enquanto responsável pelos vocais da banda, que fazia shows pelas cidades, Arthur apresenta problema de saúde, sendo diagnosticado com grave problema. Apesar deste contexto, a relação entre pai e filho continua conturbada, com acerto de contas, discussões e acusações.

 

Em grupo religioso, Shannon, agora namorada de Bart, pede orações por ele, já que notava a sua instabilidade emocional, que a alcançava, fazendo-a sofrer. Bart queria abandonar tudo, como fuga da realidade, em função do conflito com o pai: ao jogar para debaixo do tapete os problemas familiares, colhia os amargos da vida, também com a própria namorada.

 

Após algumas apresentações musicais, um empresário aparece no filme, e as avaliações de olheiros de gravadoras reprovam o cantor, quando se lembra das condenações paternas da infância. Anos não conseguiram apagar os traumas de Bart. Em momento do filme, o empresário faz o papel atribuído à figura paterna, quando pergunta: do que foge?

 

Não tem jeito. Há momento em que se precisa voltar para resolver os problemas pendentes, para se ficar em paz. Muito embora com medo, Bart voltou para casa e abandonou a turnê. Inseguro, ao ter de encarar a própria dor na relação com o pai, Bart encontra-o transformado: o café da manhã posto à mesa, a necessidade de dar graças antes da refeição, a citação de livros da Bíblia, como Levítico. Ainda que seja algo que Bart buscava na figura do pai, o seu estranhamento natural puxou as memórias de um passado ainda presente, que exigia rompimento definitivo. Se por um lado as agressões da infância conformavam a fala de Bart, Arthur questiona se todos poderiam ser perdoados, o porquê ele não.

 

Indignado com as memórias sofríveis durante a infância, Bart apresentava inicial dificuldade de perdão até descobrir a enfermidade do pai em estágio terminal. Então, seria justo perder o pai que sempre quis, transformado? Não somos eternos e alguns sofrem mais que outros, ainda que não tenham plantado, como a história de Jó, que merece a nossa releitura.

 

Bart é surpreendido com o poder de Deus: o pai foi do monstro ao modelo de homem que queria seguir. Parece apenas ficção. Não é novidade que carregamos o genótipo de nossos pais, mas também o fenótipo (morfologia, fisiologia, desenvolvimento, comportamento). Ao focar no comportamento, Bart carregava grande peso do sofrimento, que, sem resolução, pode ser capaz de reprodução em sua sociabilidade (a ver a relação com Shannon). Os pais são passíveis de erros, podem ser agentes de desconfiança, traidores, autores de maus tratos, antagônicos ao modelo de sujeito socialmente valorizado. Independentemente de qualquer coisa, caso precise, volte e resolva, visto que é condição para ir bem: é mandamento com promessa. Estou certo de que alguns rompimentos serão necessários a grande parte dos filhos, sobretudo os advindos de histórias tão difíceis de entendimento, como a violência, o abandono, a rejeição. Os pais não devem promover a ira dos filhos: disso sabemos. Não justifique determinadas falhas pessoais na figura do outro, visto que uma das causas da felicidade é o perdão: se não pratica isto é porque não entendeu o Evangelho.

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